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BapsangCulinária coreana no Brasil

Curiosidade · Fermentação ·

Kimchi elimina microplástico do corpo? O que o estudo descobriu

O estudo mediu uma bactéria do kimchi segurando nanoplástico em tubo de ensaio e mais plástico nas fezes de camundongos sem microbiota, não alimento nem gente.

A manchete e a pergunta

“Um novo estudo descobriu que este alimento popular remove microplásticos do corpo humano.” O título é da Crusoé, de 29 de março de 2026, e variações dele circularam pelo Brasil até setembro. O estudo existe. Só que ele não testou alimento nenhum, não testou gente e não mediu o plástico que já está no corpo. A pergunta que vale é outra: o que o estudo mediu, e o que isso muda para quem come kimchi (김치).

Quem fez e o que dá para ler

O artigo é do World Institute of Kimchi (세계김치연구소), instituto público sul-coreano em Gwangju (광주), ligado ao Ministério da Ciência e TIC. Saiu na Bioresource Technology, aceito em fevereiro de 2026, no volume de maio. O texto completo é pago; o que qualquer um lê é o resumo. Os percentuais que circularam não estão nele: vêm do boletim do próprio instituto, de 11 de março, e do comunicado em inglês que o EurekAlert divulgou em 19 de março, republicado pelo ScienceDaily em 18 de maio.

O que o estudo fez de fato

No tubo de ensaio

A equipe pôs uma bactéria lática isolada do kimchi, a Leuconostoc mesenteroides CBA3656, em contato com nanoplástico de poliestireno e mediu adsorção: quanto do plástico ficou preso à superfície da célula. Pelo resumo, a cepa manteve alta eficiência numa faixa ampla de concentração, pH (3 a 9) e temperatura (4 a 55 °C), por adsorção sobretudo física. A bactéria segura o plástico; o resumo não fala em degradar.

O número é do boletim: em condição padrão de laboratório, 87% de adsorção, contra 85% de uma cepa de referência de outra espécie, a Latilactobacillus sakei CBA3608.

No fluido que imita o intestino

Ainda em tubo de ensaio, a mesma medição num líquido que simula o intestino humano. Aí a diferença apareceu, segundo o boletim: a cepa de referência caiu para 3%; a CBA3656 manteve 57%. O resumo acrescenta que, nesse fluido, a CBA3656 superou as outras cepas de Leuconostoc mesenteroides que o instituto comparou.

57% e 87% não são dois estudos nem um erro: é a mesma cepa em duas condições.

Nos camundongos

O terceiro experimento usou camundongos germ-free, sem microbiota. Os que receberam a cepa, machos e fêmeas, tiveram nas fezes mais que o dobro do nanoplástico dos que não receberam. O número é do boletim; o resumo fala só em aumento significativo.

“Nanoplástico”, para o instituto, é partícula menor que 1 micrômetro. A EFSA, em artigo de 2016 no EFSA Journal, usa régua diferente: 1 a 100 nanômetros para nano, 0,1 a 5.000 micrômetros para micro. Por ela, boa parte desse intervalo seria “microplástico”. Daí o “micro” das manchetes onde o estudo diz “nano”: não é só descuido.

O que ele não fez

Não deu kimchi a ninguém, nem a pessoa nem a camundongo: o que entrou foi a bactéria isolada, administrada como probiótico. O Terra acertou: “Os cientistas estudaram uma bactéria isolada do kimchi, e não o alimento em si funcionando como tratamento.”

Não testou gente. O animal do estudo é o camundongo sem microbiota. Ao Metrópoles, a imunologista Ana Caetano Faria, da UFMG, disse: “Essas condições não refletem a complexidade do intestino humano, que tem uma microbiota muito diversa.”

Não definiu dose. O resumo não fala de humanos, de kimchi como alimento nem de quantidade.

Não mediu o plástico que já está no corpo. A hipótese do comunicado é interceptar as partículas no intestino e levá-las embora com as fezes; rim e cérebro aparecem ali como preocupação geral, não como resultado.

O boletim não manda comer kimchi: nele, a pesquisadora Se Hee Lee fala em microrganismo de alimento fermentado tradicional que apresentou “uma nova possibilidade de resposta” à poluição por plástico. Possibilidade, não remédio.

Quem é a Leuconostoc mesenteroides

Não é bactéria exótica. Segundo um estudo da Scientific Reports de 2017, é a principal responsável pelo início da fermentação do kimchi, e sua contribuição diminui à medida que a fermentação avança. É a que produz, por fermentação heterolática, lactato, etanol, acetato, manitol e CO₂: o gás do começo, que a curiosidade sobre o ponto do kimchi para o ensopado já descreve. Uma revisão da Frontiers in Microbiology de 2016 a lista entre as bactérias regularmente encontradas no kimchi e usadas como cultura iniciadora.

A espécie, portanto, está no kimchi. A cepa é outra conversa. O resumo diz só “derivada de alimento”, e o boletim, “isolada do kimchi”; nenhum diz de qual kimchi.

Como as manchetes brasileiras traduziram

A cobertura começou em março, treze dias depois do boletim, e voltou em maio, julho e setembro.

O Diário do Pará, em 24 de março: “Conheça o alimento que pode eliminar microplásticos do corpo”. No texto, “o consumo de kimchi” pode ter papel importante no processo. A ressalva sobre humanos está lá, no fim.

A Crusoé foi a mais forte, com o título que abre esta curiosidade. O texto o desmente: “ainda são necessárias mais pesquisas para confirmar os efeitos em humanos”.

O Terra, em 20 de maio, foi o mais cuidadoso: título em pergunta (“Uma comida coreana pode ajudar o corpo a eliminar partículas de plástico?”) e a palavra “hipótese”.

O TudoGostoso, em 20 de julho, escreveu que “o prato fermentado coreano pode ajudar a livrar o corpo de microplásticos” e que a bactéria foi testada “em ratos”. O estudo usou camundongos, outro animal. Mas à pergunta sobre gente respondeu “Ainda não”.

O Metrópoles, em 10 de setembro: “Prato coreano tem bactéria que pode eliminar nanoplásticos no intestino”. Foi o único dos cinco a ouvir uma especialista independente.

O exagero não nasceu aqui. No dia do boletim, um jornal coreano do setor de alimentos titulou “bactéria lática do kimchi lava o microplástico do meu corpo”, sem ressalva sobre humanos. O instituto tinha sido mais contido: bactéria lática derivada do kimchi, nanoplástico no intestino.

O que isso muda para quem cozinha no Brasil

Nada. O motivo é o desenho do estudo, não desconfiança dele.

Entre o camundongo sem microbiota e o prato na mesa há perguntas que o estudo não responde: se o kimchi que se compra ou se faz contém essa cepa, em que quantidade, o que acontece com ela num intestino cheio de outras bactérias, o que sobra dela depois da panela do kimchi jjigae (김치찌개). Os próprios autores, nas conclusões, pedem estudos que integrem a microbiota e o intestino humano; a imunologista pede ensaios clínicos.

Comer kimchi para eliminar microplástico é comprar uma promessa que o estudo não fez. Os motivos para comer kimchi são os de antes.

O que eu sei, com a evidência de hoje, é menos do que a manchete promete. Dois ensaios pequenos: em 24 mulheres obesas, oito semanas de kimchi vieram com mudanças nas bactérias do intestino; em 90 pessoas com síndrome do intestino irritável, 210 g por dia durante 12 semanas trouxeram menos sintomas, sem grupo sem kimchi para comparar. Um terceiro, em 100 adultos jovens: uma semana com 210 g por dia baixou o colesterol total mais do que com 15 g. A meta-análise de 2025 (cinco ensaios, 205 pessoas) achou efeito em glicemia e triglicerídeos, e queda de cerca de 3 mmHg na pressão sistólica; não relata efeito em LDL e pede cautela pelo número pequeno de estudos. O que só foi visto em célula e camundongo, deixei de fora. Meu conselho é o de sempre: cuidado com artigo falso; confira se a fonte é confiável antes de acreditar na manchete.

Fontes