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BapsangCulinária coreana no Brasil

Curiosidade · Cultura pop ·

O que é hotteok, o doce que inspirou o OREO do BTS

Massa fermentada com levedura, recheio de açúcar mascavo e chapa de rua: o que o hotteok é de verdade e o que o OREO do BTS lançado no Brasil tem dele.

Um nome coreano na prateleira

Desde 3 de agosto de 2026 há um OREO roxo nas lojas brasileiras cujo sabor, diz a marca, é inspirado no hotteok (호떡). É a edição limitada OREO & BTS, lançada poucos meses antes dos shows do grupo em São Paulo: 28, 30 e 31 de outubro, no Estádio do MorumBIS, na turnê ARIRANG. A imprensa explicou o doce em meia linha; a Exame escreveu “massa frita e recheio à base de açúcar mascavo, canela e castanhas”. Está certo, e deixa de fora o que define o hotteok: a massa é fermentada com levedura.

Um tteok frito, não uma panqueca

“Panqueca doce” é a tradução corrente em português; em inglês, a Organização de Turismo da Coreia também escreve “panqueca”. O dicionário do Instituto Nacional da Língua Coreana define de outro jeito: massa de farinha de trigo ou de arroz glutinoso, com recheio de açúcar, frita com óleo numa chapa de ferro ou numa frigideira até ficar redonda e achatada. E classifica o resultado como tteok (떡), não como panqueca. Não é massa líquida despejada: é massa com o recheio dentro, prensada na chapa untada até ficar crocante, na descrição da agência de turismo.

O que o dicionário não diz, uma patente da CJ CheilJedang diz. Ao registrar um mix “sem fermentação”, em 2009, a empresa descreveu o processo que queria dispensar: a massa leva levedura e fermenta pelo menos 30 minutos, em geral duas a três horas em temperatura ambiente, para ganhar volume, ficar macia e ter sabor de fermentação. Até o mix de supermercado coreano traz a levedura no pacote, “para fazer a massa crescer”, segundo um comparativo do JoongAng Ilbo de 2017. Massa que cresce é massa de pão.

O recheio clássico é açúcar mascavo com sabor de canela; a patente registra que se acrescenta farinha ou amendoim moído para dar corpo à calda. A revista do órgão nacional de patrimônio da Coreia (국가유산청, Korea Heritage Service) chama isso de “o básico” do hotteok: massa branca, recheio de açúcar mascavo com canela.

O “ho” de hotteok

O dicionário escreve a palavra com um caractere chinês na frente: 胡떡. O verbete de ho (호, 胡) o define como a palavra antiga para “bárbaros”, que na China da dinastia Tang designava os povos das Regiões Ocidentais. A revista do órgão de patrimônio segue a mesma linha: hoin (호인, 胡人) era como os chineses chamavam a gente da Ásia Central, povos que colhiam mais trigo que arroz e amassavam farinha para assar no forno ou fritar em óleo. O caractere aponta para fora da China, não para ela.

De loja com forno a barraca com chapa

À Coreia, o hotteok chegou com os chineses. Em 1882, depois do Incidente de Imo, a dinastia Qing mandou cerca de 3.000 soldados e, com eles, dezenas de comerciantes, segundo a revista do patrimônio; a Encyclopedia of Korean Culture liga a chegada ao tratado de comércio sino-coreano do mesmo ano. Em 1889 já havia em Seul uma loja de hotteok de um chinês de Guangdong. Eram 17 em 1906, 203 em 1923 e 1.139 em todo o país em outubro de 1930.

As lojas chinesas caíram nos anos 1970, por dois motivos que a enciclopédia aponta: o hoppang (호빵) e a regulação ambiental sobre os fornos. Quase desapareceram; o hotteok, não. Sobreviveu a versão de chapa, porque o hotteok de forno não cabia na pojangmacha (포장마차), a barraca coberta de rua onde ele é feito hoje, como observa a revista.

Inverno, rua e copo de papel

Hotteok é lanche de inverno. A revista do patrimônio diz que é na estação fria que ele é mais apreciado, e o chama de “barato e gostoso”, lanche “de que gostam adultos e crianças”. Nenhuma das fontes explica o porquê; todas constatam.

O copo de papel tem motivo. Antes, conta a mesma revista, o hotteok era servido num papel grosso dobrado ao meio; a calda quente escorria, queimava a boca e sujava mão e roupa, e muitas barracas passaram a servir num copo. O preço virou notícia quando subiu: no inverno de 2025, segundo a Newsis, o hotteok em Seul chegou a cerca de 2.000 won a unidade, por causa da alta da farinha de trigo.

O que o biscoito tem de hotteok

A Mondelēz anunciou a edição em 26 de maio de 2026, para mais de 80 mercados, e descreve o OREO & BTS como um OREO “sabor panqueca de açúcar mascavo”, com um creme que “remixa os sabores do hotteok, uma panqueca quente recheada de açúcar mascavo, popular nos mercados de rua coreanos”. É toda a descrição oficial. No Brasil, a imprensa chama o sabor de “Panqueca Doce”.

O resto é embalagem e fã. Os biscoitos são roxos, os primeiros roxos da marca, “em homenagem aos fãs do BTS”. Há 13 relevos desenhados pelos integrantes, pelos 13 anos do grupo; a arte do pacote homenageia os mercados de rua da Coreia do Sul, e um código QR leva a uma plataforma de cartas ao BTS. Segundo o comunicado, o grupo escolheu o sabor por memória de infância; é a marca falando.

O que as receitas brasileiras adaptam

Menos do que parece. Três receitas de hotteok publicadas em português (Quer aprender a cozinhar? Coreia, 2014; Made in Coreia, 2024; e Coma lá em casa, 2021, creditada à Maangchi) fazem a massa com farinha de trigo comum, fermento biológico (seco, nas duas que especificam), água ou leite morno, açúcar, sal e óleo; o recheio, com açúcar mascavo, canela e castanha; e fritam em frigideira com óleo, achatando com a espátula. Não há item coreano na lista.

A frigideira não é adaptação: a definição do dicionário já diz “chapa de ferro ou frigideira”. Se a chapa da barraca dá resultado diferente, nenhuma fonte mediu. A farinha de arroz glutinoso é opcional na mesma definição e entra em proporção pequena nos mixes coreanos, 5 % no da Ottogi e 3,7 % no da CJ, segundo o JoongAng; as três receitas usam só trigo. Na castanha, duas levam amendoim (uma admite nozes no lugar) e uma, castanha de caju.

O que isso muda para quem cozinha no Brasil

Trate o hotteok como pão, não como panqueca. Duas das receitas brasileiras pedem cerca de uma hora de fermentação; a patente da CJ descreve duas a três horas como o normal. Nenhuma fonte testou as duas lado a lado, e o critério que sobra é o da terceira receita, “até dobrar de tamanho”: a massa manda, não o relógio.

O biscoito é um OREO com sabor de açúcar mascavo e o nome de um doce de rua. Quem comprar o pacote antes do show leva o sabor; o hotteok, com a massa que cresce e a calda que queima a boca, continua sendo coisa de barraca ou de frigideira.

Tenho lembranças de comer, quando criança, hotteok caseiro feito pela minha mãe, sempre no inverno. A última vez em que comi foi em uma viagem à Coreia do Sul, no mês de dezembro. Comi em alguns sijang (시장), estilo mercado municipal. A textura, um pouco gelatinosa, é o diferencial. Depois da primeira mordida vem o aroma da canela no açúcar, com pedaços de castanhas, mas tem que tomar cuidado para não queimar a língua, e davam em copo de papel. Para facilitar a receita, existe o Mix de Hotteok, que às vezes está disponível no Supermercado Otugui.

Fontes